Em 20 anos, mortalidade por doenças cardiovasculares no Brasil será a maior do mundo
O aumento da incidência, as dificuldades de acesso e incorporação de novos tratamentos apontam para este cenário; III Fórum Siga Seu Coração debate caminhos para a atenção ao paciente de alto risco
Da Redação - Publicado: 05/10/2017 - Atualizado: 24/10/2017

Apesar da diminuição da mortalidade por doenças cardiovasculares no mundo, no Brasil as taxas continuam crescendo.  Segundo dados apresentados pelo cardiologista Dr. Marcelo Sampaio no III Fórum Siga Seu Coração, que aconteceu na última terça-feira (03) em Brasília, o País está entre os dez com maior número de óbitos por doenças do coração. A previsão, nada animadora, é de em 2040 ocupará a primeira posição nesse ranking.

Os caminhos para melhorar esse cenário foram debatidos por especialistas e poder público na terceira edição do Fórum realizado pelo Instituto Lado a Lado Pela Vida. Para Sampaio, a crise econômica e a estrutura de assistência médica dificultam avanços nesses números. “O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento de Doenças Crônicas foi criado com metas como reduzir o consumo de sal em 30%, diminuir a hipertensão em 25%, diminuir o sedentarismo em 10%. Nenhuma dessas metas foi cumprida”, informou.

A solução que se apresenta, segundo ele, está na cooperação entre sociedade, ONGs e planos de saúde, além de ações efetivas voltadas para a conscientização. “É inviável hoje fazer um check-up pelo SUS. Nos planos privados também existe essa dificuldade. Não podemos contar com o governo para fazer o trabalho de prevenção”, afirmou.

Os especialistas que participaram da primeira mesa de debate também reforçaram o poder da informação para empoderar pacientes. Ana Paula Bortoleto, responsável pelo núcleo de Alimentação Saudável do Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), explicou que o órgão tem pleiteado projetos de leis para estimular o consumo consciente.

Os alimentos ultraprocessados, ricos em sódio, açúcar, gorduras trans e saturada, são grandes vilões do coração. Uma das inciativas da instituição propõe a atualização das normas de rotulagem vigentes no Brasil. Chamada “Rotulagem Adequada Já”, a campanha se inspirou no modelo adotado pelo Chile. “As pessoas não entendem as informações dos rótulos. Ela é colocada de um jeito muito técnico. Precisamos tornar isso mais claro”, explicou.

Além de campanhas como essa, o IDEC também atua para fortalecer a agricultura familiar, analisar a publicidade inadequada de alimentos, educar e estimular a alimentação saudável. A reivindicação de políticas públicas é parte fundamental do trabalho desenvolvido. “Levar a informação não garante que o indivíduo vá mudar hábitos. É fundamental, mas não é suficiente. Se não tivermos um ambiente que faça com que o hábito mais saudável seja mais prático, mais rápido, mais prazeroso, a mudança não vai acontecer”.

Luiz Henrique Mandetta, Deputado Federal (DEM), frisou que mudanças como essas não ocorrerão abruptamente e defendeu a busca por um consumo ‘equilibrado’. Segundo ele, outros mecanismos de inibição do consumo devem ser discutidos, como sobretaxar alimentos nocivos. Recentemente, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) propôs o aumento da tributação de bebidas açucaradas e restrição da oferta de bebidas e alimentos ultraprocessados nas escolas.

Estamos cuidando de diabéticos com tratamentos dos anos 50”

As dificuldades de acesso, tratamentos e adesão do paciente também foram temas de discussão. Hoje, apesar dos avanços nas terapias para controle de doenças crônicas em pacientes de alto risco, muito pouco é incorporado ao sistema público.

“Estamos cuidando de diabéticos com tratamentos dos anos 50”, afirmou o endocrinologista, Dr. Paulo Roberto Rizzo Genestreti. O Brasil é hoje o 4º país em número de diabéticos, no entanto, apenas 10% destes pacientes estão dentro da meta de controle das taxas. Isso acontece, segundo ele, devido à “Inércia Terapêutica”, momento em que o tratamento deixa de surtir efeito e, mesmo assim, nada é feito para manter os números sob controle. “O indicado é que, caso o tratamento não se mostrar eficaz após 3 meses, prescreva-se outra droga. No Brasil leva-se um ano e meio para acrescentar um novo medicamento de controle.” Além disso, das 6 opções terapêuticas recomendadas pelas diretrizes, somente 2 estão disponíveis no sistema público.

Décadas atrás, eventos cardiovasculares estavam relacionados a um estilo de vida diferente, por este motivo, doença reumática e de chagas eram as mais letais. Hoje, os fatores de risco são outros: colesterol, diabetes, hipertensão, sedentarismo e tabagismo estão entre os principais.

Por serem fatores evitáveis e controláveis, boa parte da prevenção e tratamento está nas mãos do próprio paciente. Para o cardiologista Fernando Alves Augusto da Costa, a mudança deve ser feita na base. “É preciso modificar o perfil já na escola, porque não há governo que vá aguentar o custo para se tratar mais tarde”.

Além do impacto nas taxas de mortalidade, as doenças cardiovasculares também têm consequências econômicas e sociais. Segundo Bruno Parente, neurocirurgião, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) é a principal causa de incapacidade no País. O especialista explicou que a agilidade no reconhecimento dos sintomas e no atendimento do paciente é fundamental para evitar que este evento deixe sequelas. “O tempo ideal para atender este paciente com AVC é de até 4 horas e meia”, explicou.

Infarto na mulher: a negligência dos sinais

Apesar de mais frequente no homem, o número de infartos em mulheres vem aumentando. Além disso, o problema costuma ser mais fatal no sexo feminino.

Segundo o cardiologista Iran Gonçalves Junior, o episódio na mulher pode ocorrer de forma menos ‘dramática’ e ser confundido com quadros menos graves. Os sintomas não são os clássicos: respiração curta, dor na mandíbula, náusea, dor de estômago e sensação de desconforto no peito.

“Esses sintomas mais brandos muitas vezes são diagnosticados como uma crise de ansiedade ou até mesmo indigestão. Se o médico não está acostumado e não tem conhecimento sobre a manifestação diferente na mulher, não vai fazer o diagnóstico do infarto”.

O cardiologista Leandro Richa Valim também pontuou a mudança de estilo de vida das mulheres como um fator para o aumento da incidência. A correria e o estresse do dia a dia têm impacto comprovado no desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

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